Nada Faz Sentido

A Questão Ucrânia

Motivações falsas, relações históricas conturbadas

Há muita desinformação sobre a Ucrânia circulando pela internet. Não é sequer questão de notícias falsas, mas sim de meias-verdades que são extremamente verossímeis. A Rússia é mestra em campanha de desinformação, algo já sabido há anos e amplamente discutido desde que Trump venceu as eleições para presidente dos EUA.

O problema é que o “mundo ocidental”, além dos limites da antiga cortina de ferro, não entende (ou não aceita) o fato de que a Rússia sempre foi uma nação primariamente militar e expansionista, e que a invasão à Ucrânia é só uma parte de uma política de dominação centenária promulgada pelo país. Muitos ainda veem a Rússia sob a ótica romantizada da URSS enquanto ignoram as vozes que denunciam a interferência russa, que existe desde sempre. Afinal, o que levaria países da extinta União Soviética a romperem laços com a Rússia em troca de maior aproximação com o ocidente? Muitos pensam que é a influência americana minando a confiança na potência regional… mas estão errados.

Como tudo que envolve geopolítica, a situação é mais complexa. Colocar a responsabilidade do conflito nas costas dos EUA, ou mesmo da OTAN, é negar a agência de governos e populações locais em fazerem escolhas e compreenderem a própria história, um fenômeno que tem sido, primariamente, presenciado na dita “esfera ocidental”. Acadêmicos eslavos já criaram um termo para este fenômeno: westsplaining. E quando pessoas que não compreendem a história da região começam a opinar se baseando em políticas do século 20 — neste caso, estruturas políticas da Guerra Fria — para explicar conflitos do século 21, fica claro que vão recorrer a argumentos anacrônicos ou, na pior das hipóteses, comentários “americocêntricos”, ignorando o fato de que países europeus atualmente possuem uma maior independência na tomada de decisões do que no século passado.

Convém dizer que, ideologicamente, não tenho viés político quanto a este conflito. Isso não quer dizer que sou neutro, e já destaco que minha posição é pró-Ucrânia. Porém, não me baseio em direita vs. esquerda, libertarianismo vs. comunismo, ocidente vs. oriente, etc. Sou grande admirador da história e cultura russa, inclusive do período soviético, mas é importante reconhecer os aspectos problemáticos da história da nação. E esta região tem histórias, mais antigas que a própria Independência do Brasil, influenciando a política local até os dias atuais.

Organizei o texto sob tópicos que considero relevantes, mas por ser um assunto multifacetado, é importante ter em mente que várias linhas se cruzam em diversos pontos, muitas vezes repetidamente. Não é preciso concordar comigo, mas caso ler o texto ajude a contextualizar melhor o conflito e a entender como ele é mais antigo do que parece — e a fugir de estereótipos políticos — já me considero satisfeito.

Dito isso, é importante começar pela questão de maior discórdia no que se refere à Ucrânia: neonazis.


Ultranacionalismo na Ucrânia

É inegável que a presença de ultranacionalistas na Ucrânia foi utilizada como ferramenta de propaganda para deslegitimar um levante popular que forçou a troca de governantes e abriu caminho para uma democracia mais livre. Livre não no sentido econômico, mas sim no sentido político, permitindo um reflexo maior da opinião popular sobre qual caminho o país deveria seguir. Isto também é um ponto importante para o aspecto cultural do país, há séculos sofrendo o processo de “russificação”, que apaga tanto o aspecto cultural quanto a agência política da região.

(Nota: fronteiras na Europa não são, necessariamente, pontos limitantes de troca cultural ou movimentação de pessoas. Devido à natureza das nações antes do século 20, é impossível determinar com clareza em que ponto começa a se manifestar uma cultura e em que ponto termina outra. Para habitantes de um país continental como o Brasil, principalmente para quem mora longe das fronteiras, pode ser um pouco difícil de compreender que fronteiras geopolíticas — aquelas que vemos em mapas — não são limitantes culturais ou populacionais. Migrações, temporárias ou não, entre estados independentes são comuns e rotineiras.)

Movimentos de independência da Ucrânia existem há séculos, remontando até, pelo menos, a existência do Hetmanato Cossaco, um estado ou protoestado da área central da Ucrânia que, em determinado momento, foi dividido entre o Tsarado da Rússia (que mais tarde viria a se tornar o Império Russo, após uma agressiva campanha colonizadora e expansionista) e a Comunidade Polaco-Lituana (uma união de poderes entre o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia). A fronteira natural que dividiu o Hetmanato ao meio foi o Rio Dnipro. Pode-se considerar que esta foi uma das primeiras tentativas de dividir a região sob “esferas de influência”. Atualmente, há tentativas de usar a mesma lógica como justificativa para explicar as diferenças entre os “ucranianos do leste” e os “ucranianos do oeste”, embora os habitantes em si do território da atual Ucrânia não façam esse tipo de diferenciação. Afinal, variação cultural dentro de um estado geopolítico é algo normal, e considerando a extensão territorial da Ucrânia — o maior país em área da Europa, perdendo apenas para a própria Rússia — é natural que não seja culturalmente homogêneo.

Mapa etnolinguístico da Ucrânia. Fonte. Convém lembrar que apesar da maioria russa na Crimeia, os nativos de lá — tártaros da Crimeia — foram deportados para a Sibéria durante a URSS.

Considerando as tentativas de independência que perduram há séculos, não é surpresa que surgiriam movimentos ultranacionalistas, principalmente quando a nação passou estes mesmos séculos sendo subjugada ou sofrendo tentativas de apagamento cultural. O regresso até a Segunda Guerra Mundial para explicar a ascensão de ultranacionalistas e fascistas é uma simplificação de um conflito de várias camadas: apesar dos ultranacionalistas da época se identificarem com os nazistas na questão do antissemitismo e do sentimento antipolaco, eles enfrentaram tanto a dominação soviética como a dominação nazista, embora diferentes movimentos tenham colaborado com um lado ou outro de acordo com a conveniência da época. Stepan Bandera, uma figura extremamente controversa daquele período devido ao alinhamento com nazistas (por ser antissemita) enquanto lutava pela independência da Ucrânia, foi preso pela Gestapo e, enquanto parte da família dele foi enviada a Auschwitz, onde morreram, outra parte foi enviada para os Gulags soviéticos.

Isso, claro, não escusa a existência de ultranacionalistas e nem sua aceitação na sociedade civil, mas serve para ilustrar como a região, eternamente presa no conflito entre grandes potências ao longo de diferentes épocas, tem uma relação incomum com o sentimento de nacionalidade e desejo por independência. E isso não é exclusivo da Ucrânia: um dos exemplos mais conhecidos de resistência à dominação russa foi a Finlândia, que, na Guerra da Continuação, se aliou aos nazistas para repelir as tropas soviéticas que ameaçavam sua autonomia recém-conquistada. Dificilmente alguém chamaria a Finlândia de país nazista hoje em dia.

(Neste ponto, antes de prosseguir, é importante compreender que chamo os ucranianos de ultranacionalistas, e não nazistas, porque o movimento existente dentro da Ucrânia não é uniforme. Apesar da pouca representação que eles têm em relação à população absoluta, nem todo movimento se alinha ao nazismo, da mesma forma que nem todos os membros apoiam ações antissemitas. Mas ultranacionalismo é ultranacionalismo, e é um problema que a Ucrânia vai precisar resolver em algum momento.)

Uma das justificativas da Rússia para invadir a Ucrânia era para “desnazificar” o país. O que é no mínimo uma justificativa hipócrita, pois a própria Rússia mantém contato próximo com ultranacionalistas russos e, inclusive, utiliza eles como “proxy” em combates onde não deseja sacrificar militares. Outra justificativa é que o governo ucraniano, supostamente nazista, estaria discriminando e atacando cidadãos russos e suprimindo o uso do idioma russo, o que é absurdo, já que não há nenhum relato verificado disso.

A essa altura, já circula amplamente a informação de que o presidente da Ucrânia é um judeu, cuja família morreu no Holocausto e cujo avô fez parte do Exército Vermelho. Não só isso, como a língua primária dele é russo, não ucraniano. Os cidadãos etnicamente russos nunca relataram qualquer tipo de discriminação. Além disso, apesar da língua oficial ser ucraniano, russo e outras línguas minoritárias regionais têm proteção garantida pelo Artigo 10 da Constituição da Ucrânia.

Ainda sob a acusação de nazismo, há diversas imagens de insígnias governamentais sendo ligadas à simbologia nazista, mas essa afirmação é completamente falsa: embora haja um determinado batalhão que utiliza símbolos nazistas, os órgãos do governo em si utilizam símbolos que remontam ao período medieval, quando a nação que existia na região ainda era conhecida por “Rus’ de Kiev”. Estes símbolos foram cooptados por alguns grupos ultranacionalistas — como o tridente e o leão — mas o significado é anterior ao surgimento destes grupos e são largamente interpretados como símbolos nacionais, não nacionalistas.

Porém, é inegável a existência do Batalhão de Azov, que antes de ser incorporado ao exército, era um grupo miliciano ultranacionalista. Desde que foram oficializados no exército, em 2014, eles participam ativamente da frente de combate contra a ocupação russa no leste. Isto leva à questão: se Ucrânia não tem um governo nazista, por que possuem um batalhão com membros nazistas?

Eu, sinceramente, não sei. Talvez por serem eficientes na frente de combate, e por haver uma certa tolerância a movimentos que apoiem a independência, a Ucrânia não considerou isso problemático — ainda mais por haver judeus ucranianos que dizem apoiar o batalhão, o que é simplesmente paradoxal. Relatos apontam que o batalhão agia apenas no conflito de Donbass, o que também pode ter evitado que o governo sacrificasse recrutas na frente de guerra.

O ponto mais importante, porém, é que estima-se que a quantidade de membros do batalhão vem caindo consideravelmente nos últimos anos.

Ao contrário de muito do que foi divulgado, o apoio aos ultranacionalistas entre a população civil caiu desde 2014. Apesar da união política do Setor Direito, Svoboda e Corpo Nacional — todos partidos de extrema-direita — eles elegeram apenas 1 membro para o parlamento nas últimas eleições (situação melhor que do Brasil, onde o parlamento é repleto de extremistas). Não apenas isso, como o maior grupo de oposição ao governo é pró-Rússia.

(Adendo: partidos pró-Rússia foram banidos durante a lei marcial por medo de que membros estivessem passando informações para as tropas russas. Embora a posição oficial dos partidos seja antiguerra, vários membros têm ligações diretas com a política russa. O padrinho da filha mais nova de Viktor Medvedchuk, um deputado pró-Rússia, é ninguém menos que o Putin, por exemplo.)

Pelo menos, antes da Rússia realizar a invasão, tudo apontava que grupos ultranacionalistas estavam fadados à irrelevância política e ao esquecimento.

Continua sendo relevante lembrar que, independente da existência de células ultranacionalistas dentro de um país, isso não é justificativa para uma invasão militar. Ainda mais quando o chefe de estado da nação invasora financia partidos de extrema-direita no resto da Europa.


O fator OTAN

Há um argumento curioso em determinados tipos de discurso político nos quais a agência de um país é completamente ignorada, independente do que seu governo ou população fale ou faça. É uma espécie de fetichização geopolítica, onde qualquer nação não-desenvolvida ou (supostamente) mais pobre é sempre vítima de golpe de alguma potência “do ocidente”, principalmente se isso satisfaz o estereótipo cultivado pelo senso comum para aquela região. O leste europeu é, frequentemente, vítima disso, apesar dos países da região terem IDH e Gini melhores que o Brasil, além de conhecerem a própria história política melhor do que muitos comentaristas das Américas.

A Ucrânia não é exceção.

Claro que nenhum país jamais terá uma opinião política homogênea, mas não só na Ucrânia, como em todo o leste europeu, há um sentimento geral de desconfiança da Rússia por razões históricas. Porém, poucos países europeus seriam capazes de se defender sozinhos, de maneira eficaz, do ataque de uma potência militar. A Segunda Guerra Mundial serviu de prova como uma nação militarista seria capaz de arrasar o continente europeu em pouco tempo. Foi aí que alguns países se uniram para criar uma organização de defesa militar comum, garantindo ajuda mútua caso algum membro fosse invadido.

Este foi o Tratado de Bruxelas, assinado em 1948 pela Bélgica, Luxemburgo, Países Baixos, França e Reino Unido.

Com o passar dos anos, a quantidade de membros aumentou, chegando até a incluir dois países que não são da Europa — Canadá e EUA — e países do antigo Pacto de Varsóvia, se tornando o que atualmente conhecemos como OTAN.

A OTAN é um pacto defensivo amplamente conhecido pelo Artigo 5, estipulando que um ataque contra um membro é um ataque contra todos, garantindo que todos possam agir em conjunto para eliminar a ameaça. A única vez que este artigo foi invocado, até hoje, foi após o 11 de setembro. E pode ter sido este evento que distorceu a percepção da aliança, por terem participado de operações militares no Afeganistão.

Porém, a OTAN nunca iniciou uma ofensiva militar por conta própria. Os soldados que a OTAN posiciona em países membros são em baixo número, sempre em rotação, e as bases utilizadas contêm apenas equipamento defensivo, como mísseis sem carga explosiva cujo objetivo é destruir mísseis balísticos em pleno voo. A própria Rússia, apesar das denúncias que faz sobre se sentir ameaçada pela OTAN, foi uma nação parceira em diversas intervenções. Não só isso, como até 2014 a Rússia era convidada para testemunhar os exercícios militares da organização e averiguar a situação das bases defensivas no centro e leste europeu. A Rússia passou a recusar alguns destes convites a partir de 2013 sem oferecer maiores justificativas.

28 estados-membros e parceiros da OTAN. Fonte.

Por ser uma aliança defensiva, a OTAN não convida ou pressiona outros países a entrarem para a organização: são os interessados que devem peticionar sua entrada, que precisa atender a diversos pré-requisitos, e a aceitação pode ser barrada por outros membros. Por essa mesma razão, a OTAN nunca assinou qualquer compromisso que negasse, de antemão, a entrada de nações interessadas em integrar a organização. A dita “expansão para o leste”, amplamente criticada por quem ainda possui uma visão maniqueísta da geopolítica mundial, foi resultado natural daquilo que os próprios países do leste desejavam.

Desde a queda do Muro de Berlim, diversos ex-membros da URSS foram aceitos na OTAN. A razão era clara: para que pudessem estabilizar suas economias, era necessário garantir que jamais sofreriam invasões ou partições como aconteceu ao longo do século 20. O medo da Rússia era um fator dominante, já que ainda havia resquícios do conceito de “esferas de influência”, no qual os países do leste europeu “pertenciam” à Rússia, por razões geopolíticas e culturais, e não só deveriam evitar as “alianças ocidentais”, como qualquer aproximação maior a elas seria considerada uma provocação.

Ou seja: os países não seriam livres para escolher qual caminho seguir, mas deveriam se resignar aos papéis definidos pelas potências militares para garantir a paz mundial. São nações que deveriam sacrificar o desejo de estabilidade para manter o status quo. Ou assim pensam alguns analistas, ainda presos à visão de mundo dicotômica — e anacrônica — da Guerra Fria.

Quando a Geórgia, um ex-país soviético, iniciou diálogos para a ascensão à OTAN, Rússia invadiu duas províncias — Abcásia e Ossétia do Sul — sob a justificativa de defender russos étnicos da região e reconheceu — unilateralmente — a independência delas.

O mesmo aconteceu em 2014 com a Ucrânia, embora, diferente da Geórgia, o país tenha uma área territorial mais extensa e maior capacidade de defesa. Agora, em 2022, houve a invasão total do país, buscando encerrar o que foi iniciado 8 anos antes.

Diferente da Rússia, a OTAN não reage militarmente quando um membro decide abandonar a aliança. A própria França passou 4 décadas afastada da organização que ela mesma ajudou a fundar, por exemplo.

A esta altura, fica claro que a OTAN não é um fator relevante para as ações russas, mas um bode expiatório, e as tentativas de culpar uma suposta pressão norte-americana são infundadas, pois a região não só não é de interesse estratégico americano, como a Europa tinha, até 2013, boas relações comerciais e uma boa diplomacia de defesa com a Rússia — afinal, a dependência europeia do gás e petróleo russos é inegável.

Um ponto que convém lembrar é que, após a queda da URSS, a Ucrânia votou um referendo de independência, que foi reconhecido internacionalmente. Em 1994, entregou suas armas nucleares — o terceiro maior arsenal do mundo — à Rússia em troca de garantias da integridade territorial pós-soviética. Este foi o Memorando de Budapeste, assinado pela Rússia, EUA e Reino Unido, garantindo que jamais fariam pressão política ou militar para coagir a Ucrânia.

Está claro que a Rússia rompeu o acordo em 2014, ao anexar a Crimeia e armar insurgentes no leste ucraniano, e em 2022, ao reconhecer unilateralmente a independência dos territórios separatistas e, dias depois, invadir a Ucrânia. A falta de ação, em 2014, dos outros países que validaram o Memorando demonstra o quão pouco se importam com a região.


A Rússia é para o leste europeu o mesmo que os EUA são para a América Latina

Para quem nasceu na América Latina, EUA remetem a golpes de estado e controle de governos estrangeiros. Mesmo que isso não seja ensinado nos livros de história, invariavelmente se descobre a verdade e se aprende o quanto os EUA controlaram a política dos países da região para se defender de uma suposta “ameaça vermelha”. Agindo quase como um espelho do outro lado do mundo, a URSS fez o mesmo para proteger seus cidadãos da “ameaça ocidental”.

Não só isso, como cada país exerceu um papel oposto ao outro dependendo de qual lado do mundo se vive: nas Américas, EUA eram controladores e não aceitavam governos liderados por políticos que desafiavam a suposta liberdade democrática americana, enquanto que a URSS trazia o sonho de uma revolução e independência política para garantir uma sociedade igualitária; no leste europeu, Báltico e Ásia Central, a URSS engoliu nações independentes e instalou líderes alinhados com o governo central de Moscou, atacando militarmente nações que tentavam declarar independência, enquanto os EUA traziam a esperança de uma vida livre do domínio autocrático e nepotista dos soviéticos.

Apesar dessa generalização ser, superficialmente, irônica, ela demonstra a complexidade das relações internacionais entre nações independentes e seu papel no mundo, bem como define a aceitação e recepção das ações de cada potência de acordo com sua atuação histórica. A prova disso é a visão positiva que a URSS invoca para latino-americanos, comparada à visão negativa que os EUA carregam para determinados setores da sociedade.

Claramente, ao avaliar desta maneira, ninguém tem razão. As particularidades de cada país, a divisão política dentro da sociedade e a representação das potências no imaginário popular afetam a percepção daquilo que é correto ou moral e o que é incorreto ou imoral. Juízos de valor são aplicados a entidades abstratas, pois é mais fácil fazer isso do que analisar as infinitas variáveis que levaram às decisões que definiram o mundo moderno.

Por esta razão, não surpreende haver apologistas do Putin tentando justificar a invasão russa — ou descreditar a defesa ucraniana — como se a Rússia não tivesse séculos de história colonialista, na qual foi responsável por incontáveis genocídios e limpezas étnicas, além de ter suprimido dezenas de movimentos de independência de povos que não tinham nenhuma ligação cultural com a Rússia. A mesma coisa aconteceu quando os EUA invadiram o Iraque sob falso pretexto, apesar dos incontáveis protestos antiguerra que aconteceram ao redor do mundo denunciando a medida.

O que surpreende é a facilidade com a qual é possível obter informações para emitir uma opinião bem informada — ou, ao menos, melhor informada — mas que é consistentemente ignorada em prol de viéses culturais.

A história do leste europeu é complexa e sangrenta, e explorar todas as nuances envolvidas exigiria uma vida inteira de estudos apenas para arranhar a superfície do que já aconteceu ali. Entretanto, há uma constante eterna: a nação invasora sempre esteve errada.


Estrutura do poder na Rússia

Vladimir Putin é o Ivan IV — também conhecido como Ivan, o Terrível — do século 21.

Explico a comparação: Ivan IV foi o responsável pela fundação do Tsarado da Rússia, no século 16, ao iniciar o projeto de expansão que culminaria na criação do Império Russo algumas gerações depois. Durante a primeira década de seu reinado, o Tsarado prosperou e foi relativamente estável. Porém, após alguns eventos trágicos — dentro e fora da corte — Ivan IV se tornou cada vez mais paranoico. Ele passou a eliminar os boiardos — a alta aristocracia russa — e criou a oprichnina, uma espécie de polícia estatal que podia agir com impunidade para reprimir e punir os boiardos, além de confiscar seus bens e terras.

A vida de Ivan IV foi mais complexa do que este breve resumo faz parecer, com traições, assassinatos e paranoia. No entanto, é inegável que Putin seguiu uma história parecida, na qual, após assumir o poder, passou a primeira década restruturando a Rússia. Ele inegavelmente fez coisas boas, como estabilizar a economia e reduzir o alcance da máfia russa. Porém, realizou tais feitos ao promover silovikis — ex-membros das forças armadas, de serviços de espionagem, etc. — para cargos políticos e controle de empresas estatais. Ainda assim, esta ascensão era permitida apenas aos silovikis mais leais a Putin e que compartilhassem sua visão para o futuro da Rússia. Os detratores perdiam todos os privilégios adquiridos, como aconteceu com alguns oligarcas que criticaram Putin ao longo dos últimos 20 anos.

Quadro: Ivan, o Terrível, e seu filho, por Ilya Repin. Ivan, o Terrível, e seu filho, por Ilya Repin. Ivan IV matou seu filho com um golpe na cabeça durante uma discussão acalorada. Esta foi a causa indireta do Tempo de Dificuldades na Rússia, que levou à ascensão dos Romanov.

Ao longo da segunda década no Kremlin (Putin já está no controle da Rússia há 22 anos), o poder e a influência dos siloviki aumentaram, bem como a corrupção perpretada por cada membro no governo. Não só isso como o próprio governo de Putin, que outrora tinha um semblante de democracia, se tornou cada vez mais autocrático, incluindo a supressão de mídia independente, perseguição (e assassinato) de críticos do governo, criação de leis que reprimem os direitos de minorias e, por fim, a extensão do próprio mandato presidencial.

O fator diferencial entre Putin e Ivan IV é que ele não herdou o controle da Rússia por direito divino, mas por manipulação das organizações democráticas. E, claramente, uma pessoa não é capaz deste feito sozinha: aqueles que armaram a ascensão de Putin continuam no poder. É por esta razão que, caso Putin seja removido do controle, não há muitas esperanças de que seu sucessor seja melhor. Toda a elite russa, principalmente os siloviki, compartilham da mesma visão, e é pouco provável que abririam mão disso — e dos benefícios que possuem — em troca de um governo transparente e democrático, onde jornalistas seriam capazes de investigar crimes e corrupção sem medo de serem envenenados ou assassinados. Também é difícil acreditar que permitiriam políticos de fora do círculo interno assumirem o poder.

Assim como Ivan IV, Putin está cercado de pessoas que são virtualmente imunes a qualquer tipo de condenação. Diferente de Ivan IV, Putin tem tanto poder sobre essas pessoas quanto elas têm sobre ele.


Relações históricas russas

Devido à sua representação como maior expoente do comunismo em uma sociedade europeia e devido à grande máquina de propaganda soviética que existiu durante este período, existe uma certa visão romantizada sobre a URSS. Assim como o romantismo brasileiro trata as relações entre colonizador e colonizado de forma apaixonada e dramaticamente trágica, escondendo os horrores cometidos, o mesmo acontece com a história da União Soviética.

Embora seja inegável que a Revolução Russa de 1917 trouxe melhorias na qualidade de vida do antigo campesinato, a sociedade permaneceu extremamente hierarquizada, especialmente depois da morte de Lênin (quando houve uma purgação dos dissidentes), e intolerante a críticas. Membros da ala militar e do Partido Comunista gozavam de grandes privilégios que a maioria da população não tinha acesso, além de estabilidade — desde que fossem leais à causa. Isso colaborou para a criação e manutenção de uma sociedade militarizada que, tal como o Império Russo que havia acabado de ser derrubado, deleitava-se na conquista de novos territórios e na exaltação de heróis de guerra.

O Império Russo entrou no século 20 com uma grande desvantagem em relação à Europa Ocidental devido à falta de industrialização. Após o fim do Império e fundação da URSS, houve uma aceleração neste sentido que era incomparável a outras nações, impulsionando a economia soviética. Porém, nas Américas, pouco se fala que isso aconteceu às custas de mão de obra prisional, obtida através da eliminação sistemática de dissindentes políticos e de limpeza étnica.

Mapa da expansão colonial russa. Mapa da expansão colonial russa. Moscou é o centro. Fonte.

A União Soviética invadiu diversas nações que, frente ao fim do Império Russo, lutaram por independência. Ao reanexar estes territórios, o partido eliminava oposição política se utilizando de execuções ou deportando para os Gulags — campos de trabalho forçado, geralmente em áreas isoladas do país. A influência dos Gulags no desenvolvimento russo foi tão alto que, ao colocar um mapa dos maiores Gulags sobre outro com os centros industriais da Rússia moderna, a maioria dos locais se sobrepõem.

Todas estas nações, culturalmente diferentes e, muitas vezes, geograficamente distantes, compartilham um ponto em comum: foram subjugados pela Rússia ao longo da história, sofrendo desde genocídio e limpezas étnicas até russificação forçada e apagamento cultural. Após a fragmentação da URSS, várias continuaram sofrendo pressão política e militar sem poder reagir. Qualquer tentativa de buscar apoio ocidental era vista como “provocação”, e basta ver a situação atual da Ucrânia para compreender o resultado.


Euromaidan

Em meio a sinais de corrupção e fraude eleitoral, ucranianos foram às ruas exigir anulação e repetição do segundo turno das eleições. Era 2004, e esta foi a Revolução Laranja. O candidato beneficiado pela fraude eleitoral era Viktor Yanukovych. Após a repetição do segundo turno, Yanukovych perdeu.

Em 2013, Yanukovych, desta vez democraticamente eleito, esteve novamente no centro das atenções de outro protesto.

Depois de ter superado um período de empobrecimento durante os anos 90, a Ucrânia conseguiu, aos poucos, se recuperar, levando a uma melhora econômica e estreitamento de laços comerciais com países ocidentais. Em 2013, se discutia um possível acordo com o mercado europeu, mas Yanukovych suspendeu as negociações em troca de um estreitamento dos laços com a CEI — a Comunidade dos Estados Independentes, liderada pela Rússia. Em meio a este cenário, havia também ameaças de sanções pela Rússia contra a Ucrânia devido à aproximação com a UE, além de problemas de ordem política, já que a corrupção ainda estava amplamente presente. A população foi então às ruas, protestar mais uma vez contra Yanukovych, com grande apoio das regiões a oeste e da população de Kyiv.

Após o início das repressões policiais contra os manifestantes, a força do movimento continuou aumentando. Houve conflito armado e mortes, e parte do país mergulhou no caos. No fim, devido à pressão popular e à divisão política, ocorreu a Revolução da Dignidade, na qual Yanukovych foi removido do poder (e fugiu para a Rússia). Alterações realizadas na constituição foram revertidas e novas eleições foram convocadas.

Como retaliação pela remoção de Yanukovych, Rússia anexou a Crimeia, alegando vontade popular da região através de um referendo, que foi amplamente questionado por observadores externos. Ao mesmo tempo, movimentos separatistas levantaram-se no leste ucraniano, afirmando que a população queria se tornar independente da Ucrânia ou se unir à Rússia. Estes movimentos foram organizados por articuladores russos, e há registros de concentrações de russos tentando atravessar a fronteira para a Ucrânia na época das manifestações, o que levanta dúvidas sobre o quão orgânicos foram estes eventos.

Embora a Crimeia, agora parte da Rússia, não pudesse ser recuperada à força, a Ucrânia resistiu aos movimentos separatistas — muitas vezes com apoio popular — e recuperou rapidamente vários territórios, incluindo Mariupol (atualmente devastada pelo exército russo) e Kharkiv (que continua resistindo à invasão). Donetsk e Luhansk foram dominadas pelo exército separatista, com grandes indicações de que tiveram apoio do exército russo atravessando a fronteira ilegalmente, embora a Rússia oficialmente negasse qualquer participação nos eventos. A área destas duas cidades permaneceu em conflito constante durante os últimos 8 anos, sendo basicamente tratadas como extensão do território russo.

No geral, a maior parte da população aprovava maior integração à UE, e apesar do leste ucraniano ter maior ligação com a Rússia, foi inegável que a expulsão dos separatistas de grande parte da região levou a uma melhora na qualidade de vida. Mesmo com a queda na economia após 2014, o país se recuperou rapidamente, apesar das áreas ocupadas e do conflito constante. Embora a política ucraniana ainda estivesse longe do ideal — no que diz respeito à corrupção — a população se tornou mais participativa.

Resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2019. Resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2019. Poroshenko buscava reeleição.

Antes da invasão russa de 2022, o conflito nas regiões do leste era limitado apenas à “fronteira” entre a Ucrânia e os separatistas, a fim de evitar que os separatistas expandissem a área dominada enquanto o país tentava buscar uma solução diplomática. Agora, o conflito ocasionalmente atravessa essas linhas, principalmente desde que foi registrado lançamento de artilharia russa a partir das áreas separatistas. Mais do que isso, regiões que ainda são da Ucrânia, mas tinham maior aproximação com a Rússia, agora voltaram-se completamente contra Putin.

Considera-se que o plano russo era, originalmente, desestabilizar todo o leste, instalar governos provisórios e depois reconhecer a independência deles, tal como fez na Geórgia anos antes. Devido à falha deste plano, atualmente ocorre a “passaportização” da região, um fenômeno bem documentado no qual cidadãos das regiões dominadas podem obter cidadania russa através de um processo facilitado. Desta forma, eles se tornam efetivamente cidadãos russos, criando uma brecha que atrapalha soluções diplomáticas, além de submeter os moradores às leis e influências russas, incluindo exposição à mídia russa — sem acesso à ucraniana — e banimento das redes sociais. Os moradores das áreas afetadas não participam das eleições ucranianas desde 2014. Caso a Ucrânia algum dia recupere o controle destas áreas, esta situação dificultaria a reintegração dos moradores à cultura e política do país, sendo esse o objetivo final para assimilação dos territórios à Rússia.

Apesar da guerra em andamento, o sistema de emissão de passaportes russos na região continua em ação.


A história se repete

É preciso deixar uma coisa clara: a Europa não é perfeita. Vemos isso nos conflitos políticos, nos escândalos de corrupção (são menores que os brasileiros, mas existem), no racismo e xenofobia que muito do continente ainda exibe em relação ao resto do mundo.

No entanto, grande parte da Europa entrou no século 20 em situação pior que o Brasil e saiu do século 20 em situação melhor. A qualidade de vida deu um salto e instituições democráticas são incrivelmente funcionais — ainda que imperfeitas. Tudo indica que a Europa está fazendo algo certo, principalmente os membros da União Europeia. E quem não faz parte da UE gostaria de entrar.

A Ucrânia é considerada um dos países mais pobres e mais corruptos de toda a Europa. Se o país quer ter alguma chance de participar de um movimento democrático maior e prosperar, igual outros ex-países soviéticos fizeram — como Polônia e Chéquia — é preciso fazer ajustes, principalmente envolvendo questões judiciais e transparência política. A Rússia, com um governo autocrático e obtuso, se opõe a isso. Seria mais um ex-território soviético/imperial se unindo ao inimigo, ao “ocidente”. Então, a partir do momento que intimidação política e pressão financeira deixaram de funcionar, realizaram uma invasão militar.

Que fique claro: a Ucrânia não precisa cair, precisa apenas ser incapaz de prosseguir com seus planos de “ocidentalização”. Um país em conflito não pode entrar na OTAN e nem ser aceito na União Europeia. Uma eventual execução dos membros do governo que lideram a aproximação com o resto da Europa abre um vácuo de poder que pode ser preenchido por fantoches do Kremlin — como acontece na Bielorrússia e na Chechênia.

(Nota: a cultura eslava é formada por uma mistura de culturas europeias e orientais, portanto, tratar o “ocidente” como inimigo ou adversário é discurso político populista que busca bode expiatório para as mazelas sociais, tal como conservadores nas Américas culpam o “marxismo cultural” pela suposta destruição da “cultura ocidental”. Os países do leste já são culturalmente “ocidentalizados”.)

Porém, Putin cometeu erros. Ele não só subestimou seu inimigo, como subestimou a resposta do resto da Europa. E assim como Ivan IV calculou mal o golpe que deu em seu filho, matando ele e se tornando indiretamente responsável pelo Tempo de Dificuldades, que acabaria com a Dinastia dos Rurik e permitiria a ascensão dos Romanov — que, por sua vez, subestimariam a revolta da população, o que levaria à Revolução Russa — Putin pode muito bem ter dado início a outros tempos de dificuldades na Rússia, possivelmente marcando seu próprio fim e dando início a uma mudança política.

O que o futuro guarda para a Rússia, é difícil prever: o padrão de destruição e reconstrução faz parte da história milenar da nação. Resta saber agora se voltarão a justificar o futuro com o mito do passado ou se, desta vez, vão se libertar das amarras que impedem o surgimento de uma Rússia mais justa, livre e transparente.

Já o que aguarda a Ucrânia, não é surpresa: maior aproximação com o resto da Europa e afastamento da influência russa. Só não sabemos o quanto vai sobrar do país para dar continuidade a isso.


Referências

Abaixo, há links relacionados que ou dão maiores detalhes sobre coisas que expliquei ao longo do texto (e inspiraram parcialmente algumas seções), ou fornecem informações complementares que não eram diretamente relevantes, mas ajudam a entender a “ideia russa” com maior profundidade.

Atualização de 22/8/2024: links de redes sociais foram salvos na wayback machine como tentativa de preservação da informação.